Futebol, política e cachaça

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Belluzzo – Novo Bretton Woods e a China

Parte 5 da entrevista com Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e diretor de Planejamento do Palmeiras.

Futepoca/Diplô – Haveria clima para propor um novo Bretton Woods?
Belluzzo –
Muitos acham isso porque o sistema financeiro logo não vai funcionar mais. Poderia ser um sistema plurimonetário administrado centralmente baseado no euro, no iene e no dólar. Teria que volta para um sistema de mais estabilidade, com mecanismo de financiamento de pronto, não-privado. O que pensava o Keynes: o sistema privado de financiamento de balança de pagamentos não funciona porque ele funciona ao reverso, quando o país está bem, eles entram, quando está mal, eles saem. É necessário um sistema que funcione contraciclicamente, esta era a idéia dele de Bretton Woods, que não conseguiu implementar porque os EUA estavam com a faca e o queijo. Mas agora os EUA estariam interessados em fazer isso.

Futepoca/Diplô – Isso reposicionaria os Estados Unidos no tabuleiro global. Belluzzo – Ele já está reposicionado, como a Inglaterra depois da primeira guerra mundial. Há uma crise estrutural do capitalismo americano, os interesses da economia americana não coincidem com o das suas empresas, com o das finanças. Será preciso negociar isso. Os EUA poderiam retornar a produção manufatureira para os EUA? O que vai ser construído depende do resultado das eleições de lá, da retomada do papel dos EUA. O Brasil e a Rússia são potências energéticas e alimentares, a China, a Ásia, são um cluster manufatureiro, um protagonista indiscutível. Vai levar tempo para reestruturar o sistema, no entanto, os EUA não têm a hegemonia faz tempo, pelo menos não no conceito gramsciano, que supõe a concordância do hegemonizado. Eles não vão virar um país de segunda classe, mas vai ser necessário renegociar vários termos.
A reforma é complicada, vai ser necessário fazer uma conta de substituição como foi proposta em 1979. O que é a conta de substituição? Emitir uma moeda fundada em uma cesta de moedas. Pode-se utilizar essas moedas acumuladas em reservas e ir emitindo progressivamente em cima disso um novo ativo internacional. Teremos que reinterpretar toda a história econômica a partir desse episódio. Os EUA, ao recusar essa proposta, fortaleceram a supremacia do dólar, mas criaram as condições que levaram à crise atual e hoje vamos verificar esses efeitos. E aquele era o momento em que a China começava a fazer suas reformas, e só fomos falar de China nos anos 90.
Eu estava lá e me lembro do Alexandre Kafta, representante do Brasil, é um conservador mas ficou muito meu amigo. Ele disse: os americanos vão nos quebrar. E quebraram. Belgrado, 1979 [assembléia anual do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, em outubro]. Os europeus propuseram a conta de substituição. Os americanos se retiraram da reunião, quando estávamos no aeroporto, abrimos o Financial Times e vimos que eles aumentaram os juros. Quebraram o México, o Brasil e o resto do mundo. Japoneses e coreanos se lavaram porque venderam pra eles, que começaram a fazer um déficit comercial grande. Em 1984 começaram a recuperar a economia americana porque baixaram a taxa e deixaram o dólar se valorizar até o [acordo do] Louvre em 1987. Fizeram outra reunião, começaram a desvalorização progressiva, forçaram a abertura financeira do Japão e da Coréia, e quebraram o Japão. A valorização do iene quebrou as indústrias japonesas que não tinham mais como exportar para os EUA, eles abriram a economia japonesa, teve a crise da bolsa em 87 e a economia japonesa era muito controlada. Quando os chineses mantêm sua economia sob controle, eles lembram do Japão, da Endaka. Os japoneses ficaram dez anos em recessão. Isso tudo tem a ver com a reunião de Belgrado, a última vez que Tito apareceu em público.

Futepoca/Diplô – Então o senhor está dizendo que os EUA não percebiam o movimento chinês?
Belluzzo –
O que os chineses fizeram foi liberar a agricultura, cedendo espaço para que as famílias que ocupavam terras do Estado passassem também a produzir uma parte para o mercado, abriram as vendas para a exportação em lugares adequados, mas na verdade o que ajudou muito a China, no meu ponto de vista, foi a crise japonesa. As empresas começaram a sair de lá e passaram a olhar para a China. Lembro até, voltando ao futebol, que a Parmalat em 97 resolveu abrir a Parmalat chinesa porque estava claro que a China era um mercado que interessava. O governo americano encara a China como um país comunista que foi reintegrado no mercado internacional pelo Nixon, mas eles não perceberam que houve um movimento espontâneo das empresas deles com vistas à China. Os chineses são muito pragmáticos, têm pouca aderência à coisa doutrinária. Mas o controle é do Estado chinês, é um projeto nacional que supõe tomar o mercado alheio.

Futepoca/Diplô – Uma vocação imperialista?
Belluzzo –
Nunca tiveram. Ao contrário, a China é conhecida por defender suas próprias fronteiras. No século XV retrocederam porque sofreram invasões de todos os lados. O pessoal da Unicamp foi pra China. Num restaurante, estava o Peixe, que era um diretor da Faccamp, descendente de árabe, e o Alonso, que é muito gozador, disse para a garçonete “olha, esse aqui é árabe, tem quatro mulheres, e veio aqui ver se arrebanha uma chinesa”. Ela ficou indignada, disse que não o serviria, falou que o presidente Mao Tsé-Tung tinha libertado as mulheres chinesas... Depois que o Alonso quis explicar que era brincadeira... foi complicado. O que era a China antes dele? A submissão da mulher, casamento... Mao modernizou a China. Foi ruim, porque matou gente, mas também foi um avanço social grande em relação ao que existia.

Futepoca/Diplô – Voltando à crise, ela pode ser uma volta das crises de produção que o crédito mascarou por muito tempo?
Belluzzo –
A economia é monetária, cuja forma de criação da moeda é através do crédito. O que difere os economistas neoclássicos do Marx e do Keynes é que estes compreenderam que o capitalismo é uma economia monetária. Não há o lado real e o lado monetário, o valor se exprime na forma monetária. Por isso o Marx ficava nervoso quando alguém queria fazer que a moeda correspondesse exatamente ao valor de trabalho socialmente necessário. São formas de existência da riqueza, uma coisa é o trabalho que é fonte do valor, que não pode se exprimir diretamente na mercadoria sob esta forma. A mercadoria só pode existir em relação às demais, e só pode ser exprimida por meio do dinheiro. Ela exprime seu valor na outra. O dinheiro tem um papel fundamental. Ele dizia que nessa economia você acumula riqueza abstrata, não real. A acumulação de riqueza abstrata e a de riqueza real às vezes têm dissonância. É uma crise de produção? É uma crise de produção porque é uma crise monetária. E vice-versa. Se você seguisse o pressuposto da economia neoclássica, não existiria essa possibilidade, a crise só existe porque na busca de acumulação de riqueza abstrata ultrapassa-se o limite daquilo que é tolerável.

Futepoca/Diplô – Só faltou a avaliação da cachaça Vale Verde...
Belluzzo –
Excelente, tanto é que não fiquei bêbado (risos). Ou fiquei e vocês não perceberam...



Confira:
Parte 1 – Palmeirenses não gostam que eu diga, mas São Paulo é mais profissional
Parte 2 – Luxemburgo e Lula são gênios do povo brasileiro
Parte 3 – Marcos, a anticelebridade, e o dinheiro no futebol
Parte 4 – Na reunião com Lula, os desafios para o Brasil e para o mundo
Parte 5 – Novo Bretton Woods e a China

Um comentário:

Blog do Ricardo disse...

Exceletne blog!

Digitei belluzzo no google e apreceu isso!

Aprabéns, vou continuar dando ibope nele! rs

ABRASSS